De R. Tavares.

Rosário, com sua pele de leite fresco e cheiro de erva doce, há muito tempo não pensava na sua primeira vez. Sentiu saudades daquela época. Tinha sido a primeira de muitas vezes. Ah! Isso ela não esquecia.

No seu leito de morte — ela sabia muito bem que em breve receberia a visita daquela velha conhecida —, Rosário encarava a chama das velas na cabeceira e sorria das histórias que ali apareciam.

Avistou a menina que fora. Ela corria pelas ruas sem calçamento do vilarejo que morou com sua família. A pele alva brilhava à luz do sol, o fino vestido de chita revelava todos os contornos daquele corpo que florescia.

Ao adentrar na floresta que protegia a aldeia, os olhos lilases e perscrutadores da menina procuravam o novo amigo. Mais uma vez ele não retornara. Mas ela continuaria voltando, dia após dia, até encontrá-lo de novo. Ele havia prometido. Ela sabia que ele voltaria.

Mas foi somente alguns meses depois, em uma noite sem estrelas e de ar parado que a menina escutou o chamado. Um tic-tac compassado. Escutava aquela batida constante. Madeira contra madeira. O coração pulsava no mesmo ritmo.

Tic-tac.

Tic-tac.

Rosário sorriu. Levantou-se da cama e colocou sobre o delgado corpo o primeiro vestido que encontrou. Tic-tac. Espiou pela fresta do quarto dos pais: dormiam abraçados na brancura de seus lençóis, alheios à despedida da filha.

A menina não olhou mais para trás. Correu com os pés descalços pela trilha que levava à clareira da floresta. Lá estava ele. Tic-tac. Vestido de capa negra, botas pretas e esporas de ferro. Batia com a bengala de ébano na base de uma árvore centenária. Mantinha sempre o mesmo ritmo. Tic-tac. Tic-tac. O homem tinha o rosto protegido pelas sombras do chapéu de feltro. No breu daquela noite estranha, mal se enxergavam os contornos no homem, mas Rosário conseguiu adivinhar um sorriso branco no rosto liso homem.

Na vila, a mãe da menina teve um sono agitado. Via-se encharcada em sangue violeta, escutava a risada da filha, diabólica e compassada. Tic-tac. Tic-tac.

Acordou sobressaltada, com a camisola suada grudada ao corpo. As chamas das velas bruxuleavam em tons púrpura.

Minha Nossa Senhora! A velha fez o sinal da cruz e acomodou-se perto do marido. Mal sabia que jamais teria notícias da pequena Rosário novamente.

Tic-tac.

Tic-tac.

Rosário entregou-se ao homem de preto ali mesmo, na clareira, sob a árvore centenária. Os olhos de ametista brilhavam, e ela entregou-se ao gozo das magias e bruxarias. O homem de preto pegou a menina pela mão e a levou para longe daquele mundo. Ensinou-lhe todos os segredos das poções e maldições. Alguns utilizaram Rosário como bruxa, amante, parteira, curandeira, benzedora, entre tantos nomes que, com o passar dos anos, a velha até perdeu as contas.

Tic-tac.

Tic-tac.

A porta do quarto 1309 da Santa Casa de Beneficência Portuguesa de Bagé abriu. Esporas arrastando no piso de madeira. O salto da bota retumbando pelos corredores. A velha sorriu com a boca enrugada e com poucos dentes. Depois de tantos anos, a visita do velho amigo novamente. Sua jornada chegara ao fim.

Estendeu a mão ao mesmo homem novamente. Parecia como a primeira vez. Estenderia tantas vezes quantas ele pedisse.

O homem de negro pegou Rosário pelas mãos, beijou a ponta de seus dedos, deformados pelo reumatismo, e assoprou a chama lilás da vela que iluminava o quarto, deixando-os na mais completa escuridão.

Tic-tac.

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