Por Andrea Ilha

1 Apresentação

                Vamos fazer uma viagem diferente hoje? Saindo das Américas e da Europa, repousemos na Ásia, ou, quem sabe, na Oceania. Estamos na chamada Ilha do Timor. Fica meio que entre os dois continentes. Na região Norte da ilha se situa o país Timor-Leste, cuja capital é Díli. Trata-se de uma ilha pequena, que caberia dentro do nosso estado de Sergipe. Mas não é por isso que esse país pequenino vai servir de fantoche para qualquer país maior. Sendo um país novo, teve sua independência em 2002, um ano após a primeira edição do livro Olhos de coruja, olhos de gato bravo, escrito pelo principal autor timorense Luís Cardoso. E qual a importância desse livro para nós, aqui, no Brasil? É que estamos no país irmão do Timor Lorosae, como é conhecido o país pelos falantes da língua tétum (sua principal língua): como nós, eles também foram colonizados pelos portugueses. A língua portuguesas, apesar de manter somente uns poucos falantes e conhecedores, é considerada a segunda língua oficial. E foi em português que esse curioso escritor lançou suas obras.

                 Esse seu livro, Olhos de coruja, olhos de gato bravo, segundo de uma trilogia, apresenta uma construção literária singular. Como leitora, não estou certa de quais foram os caminhos-leitores que o autor percorreu antes de se lançar, ele mesmo, como escritor. Nem mesmo durante a leitura isso se esclarece, mas é preciso aceitar, de imediato, duas premissas: 1 – O autor não frequentou os bancos das faculdades de Letras, e 2 – o lugar de onde ele vem perpassa sua obra.[1] É, portanto, um lugar à parte no conjunto de tudo o que conhecemos mais comumente pelas terrinhas tropicais em seus cursos de Letras, de Literatura e de Arte como sendo o cânone, o popular e o fantástico.

                Pois bem, encantei-me, já há vários anos, com essa história. Foi, inclusive, o livro que escolhi como o principal para minha pesquisa de Mestrado – que não terminei. De qualquer modo, ainda posso revisitar não só as linhas, mas também as memórias inapagáveis que daquelas páginas recebi. E jamais esquecerei das surpresas que me aguardavam enquanto eu lia.

2 O enredo

                De antemão, acredito que o título Olhos de coruja, olhos de gato bravo já antecipe a curiosidade do leitor. Olhos de coruja? Olhos enormes, curiosos, profundos… de uma coruja? E nem são comuns as corujas no Timor! E esses olhos de gato bravo? Quem os tem? Olhos tão imensos quanto os da ave? Quem traz esses órgãos tão marcantes e tão marcados? Quem se serve deles para filtrar o mundo exterior para seu mundo interno?

                Beatriz, a protagonista, nasceu com os imensos olhos de coruja. Enormes olhos redondos, extremamente vivazes, curiosos. Olhos literalmente de coruja. Mas não havia mais o que ver neste mundo, que já viu e reviu tudo de ruim que existe, todas as guerras do Timor, toda a pobreza do povo. Tampouco haveria o que ver para alguém com tão imensos olhos. Eis que, para poupá-la e impedi-la de seguir olhando, durante seu batizado católico, o padre da família toma uma decisão drástica, porém incontestável: para que Beatriz não visse o terror (e, daí, nem mesmo as maravilhas) deste mundo, tomou de um tecido muito preto e vendou, literalmente, os olhos da menina. Eis que os olhos de coruja estão escondidos e, talvez, poupados das outras pessoas, do mundo, do mal.

                Quem, porém, precisa mesmo vislumbrar a vida pelo corpo físico? Não Beatriz, filha e neta de Beatrizes. Não. A venda preta a impede de usar o sentido físico da visão (algo que me parece uma metáfora assustadora para um povo sem rumo, os próprios timorenses). Mas não há como cerrarem seus olhares mágicos sobre a vida de sua família, seus segredos, sua sorte, seus destinos. Há a voz da tutora que, desde o momento em que o padre cobriu os olhos de Beatriz, a segue e serve, responsabilizando-se por limpar a venda e os olhos da menina e, no mais depressa possível, voltar a encobri-los. Essa voz ecoa, pois, por dentro daquela Beatriz de encobertos gigantes olhos de coruja.

                Ao contrário do que seria realista (e até mesmo verossímil) em um texto literário, a filha temporã de uma solitária mãe Beatriz, esta nova Beatriz nascida com os olhos tão grandes, vislumbra diante de si cenas das quais não participou, pessoas que nunca conheceu, um tempo em que não viveu. De forma quase mística, os tempos se confundem, bem como as tramas, as vozes, o próprio país em suas diversas facetas. Nos olhares encobertos mesclam-se realidade e fantasia, crenças e crendices, saberes e adivinhas.

                Enquanto acompanhamos o crescimento da Beatriz, a agora jovem mulher de olhos de coruja, também ouvimos sua voz e a voz de sua tutora. Também acompanhamos vozes já silenciadas pela morte. A morte, me parece, é também uma personagem, no sentido em que está entremeada em tudo. Ela está presente nos nascimentos, nas misérias da vida, nos cuidados e nas carências. Ela está ali, e a leitura fica presa a ela, tensa, esperando e temendo pelo destino dessas personagens que se confundem.

                Li um breve comentário sobre esse livro em que o comparavam ao “Cem anos de solidão”. Vejo-me em apuros. Ao mesmo tempo em que gostaria de discordar com veemência, um pouco até por ciúmes deste “Cem anos” que tanto aprecio, não consigo me desapegar do quanto concordo com a comparação. Não em termos de enredo ou de personagens, mas de gênero. O realismo mágico é a característica comum de ambos, sem dúvidas. No entanto, García Márquez, talvez por sua experiência literária mais ampla, trabalha seu livro dentro do gênero propositadamente, lapidando os acontecimentos para ampararem-se na necessária estranheza que causa ao leitor. Luís Cardoso, por sua vez, parece ter caído no realismo mágico depois de tropeçar nas próprias pernas, como quem se enrosca, destrambelhadamente, num tapete. Seu “Olhos de coruja” parece não querer ser assim, não ter nascido de fato no gênero. O fato, porém, é que é tarde para que se volte atrás! Sua história inscreve-se na fantasia e de lá não pode sair.

E que tal se, agora, saíssemos um pouco da terra firme? Se nos aventurássemos em um navio em alto mar, sentindo o aroma da água salgada, trabalhando como tripulantes ou espiões, apenas para conhecer o destino de Beatriz, a encoberta? É nesse ambiente de constante movimento, de atravessamento de histórias pátrias e de tempos idos e vindos, que a protagonista conhece um homem que lhe tira a venda preta de sobre os olhos. Para ele, ela que, há tanto tempo, mal sabe enxergar o derredor e interpretá-lo (como saída de uma cegueira factual), olha com encantamento. O homem tem olhos como os de um gato bravo. Olhos profundos, grandes, verdes, prontos para a caça e as descobertas dos pormenores. Olhos que se concentram num ponto pequenino, num nada, e o examinam em silêncio. Os únicos olhos para quem os de coruja se encorajam a abrir. Olhares em contato, almas que se mesclam. Metaforicamente, o autor diz que o amor transcende e cura as cegueiras de nossas almas. E o corpo virginal de Beatriz vê-se entregue ao do homem-de-olhos-de-gato, bem como sua alma e sua solidão. Em terra firme, o casamento de ambos abre o enredo para algumas novas histórias, agora mais breves, mas igualmente tocantes.

Se nos estivermos entregues a esse “surrealismo” de Luís Cardoso, teremos atravessado oceanos para pisar nas terrinhas timorenses. Podemos retornar, viajar por outros continentes e por outras histórias. Nossa viagem ao Timor, no entanto, estará impressa em nossas mentes e não a esqueceremos.

[1] Embora o Timor-Leste seja o local de nascença de Luís Cardoso, ele foi para Portugal durante o período das guerras por independência. Foi lá que ele estudou, e foi o país que adotou como sendo sua morada.

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