Por G. H. Dantas

Escrito por Ray Bradbury na década de 1950, Fahrenheit 451 retrata uma sociedade distópica em algum momento incerto do futuro. Um futuro que bem poderia ser o nosso, já que nenhuma data é mencionada ao longo das páginas. Os artefatos tecnológicos que pontuam a história, tais como as telas gigantes que forram as paredes da sala do protagonista, semelhantes demais às nossas TVs de LED, fortalecem essa possibilidade. Por outro lado, o cão de caça robô que rastreia os transgressores — o sabujo — não existe (ainda) em nosso mundo. Contudo, os jatos que cortam os céus durante a narrativa e o conflito mencionado apenas de passagem pelos personagens evocam o período da Guerra Fria — durante o qual Fahrenheit foi lançado. O incômodo causado por essas semelhanças — e dessemelhanças — com nossa realidade é o que torna o livro instigante e, apesar do seus quase setenta anos, atual.

Começamos com Montag, o protagonista. Ele é um bombeiro — fireman em inglês — cujo trabalho não é apagar incêndios, mas causá-los. Essa inversão se torna ainda mais provocativa quando descobrimos que o combustível de suas fogueiras é nada mais, nada menos, do que livros. As reminiscências de uma Alemanha hitlerista são inevitáveis no momento em que nos damos conta disso. No entanto, enquanto os nazistas mandavam queimar apenas os tomos que se desviavam de seus padrões pureza, em Fahrenheit 451 todo e qualquer livro é queimado com igual empenho, e Montag, nosso bombeiro incendiário, é feliz executando esse trabalho. Pelo menos até o dia em que se depara com uma moça, cujo comportamento peculiar (dentre outras coisas abomináveis, ela gosta de conversar!) acaba lançando perigosas dúvidas no coração do protagonista, que eventualmente rompem a fina casca de felicidade que envolve sua existência.

Aliás, nessa sociedade, espera-se que todos sejam felizes. Dessa expectativa decorreria a razão para se por fim à literatura. A leitura, afinal, poderia levar à reflexão; e essa, não raro, causaria a angústia, o desassossego, solapando a harmonia social. Por isso, o Estado toma para si a tarefa de garantir que todos os seus cidadãos sejam mantidos felizes e absortos em sua ignorância.

Muitas questões tratadas no livro reverberam em nosso mundo atual. A sociedade do espetáculo, o controle da informação, o obscurantismo, a superficialidade da felicidade, o distanciamento entre as pessoas, o sentido de nossa existência, a autodestruição… Todos esses temas perpassam o texto e nos fazem erguer os olhos das páginas — ou da tela — e nos perguntar se, por acaso, já não estaríamos numa realidade distópica. Assim, Fahrenheit 451 acaba confirmando que sim, os livros levam à inquietude.

A essa altura, dizer que recomendo o Fahrenheit 451 seria desnecessário. Mais que recomendá-lo, eu insisto que o leiam. Com urgência! Afinal, quando começarem a queimar os livros, esta obra estará certamente na primeira leva.

 

 

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