Por Pedro Delavia

Introdução:

Sempre ouvi falar muito dessa obra e, por anos, aguardei uma oportunidade para lê-la. Na mesma semana que eu fiquei sabendo da existência de uma série baseada nesse livro (produzida pela Amazon e já em exibição), um amigo livreiro, dono de um sebo que frequento, mandou-me uma foto desse exemplar oferecendo-me sua compra. Extasiado, fui logo respondendo que o queria e me reservasse e, no mesmo dia, fui buscá-lo. Mera coincidência?

Apreciador que sou, enamorei-me da brochura e a coloquei com todo carinho em uma das minhas estantes (ao lado de outros livros do autor). Pensei deuses americanos

 com meus botões: “vou lê-lo na semana de estréia da série e, assim, saberei se devo gastar meu tempo vendo algo dispendioso ou não”.

Retornei às minhas leituras e aguardei. Quando menos esperava, vi que a série seria exibida na semana seguinte. Ávido, terminei um outro livro que eu estava lendo o mais rápido que pude e, sem fôlego, comecei o volume em questão. Sem mais delongas, vamos à história.

Sobre o que é o livro:

Shadow (protagonista do livro) se vê perto da liberdade depois de três anos de reclusão numa penitenciária estadual dos Estados Unidos. Na semana de sua soltura, uma notícia devastadora interrompe a sua felicidade, sua esposa morrera num acidente automobilístico. Triste e abalado, Shadow parte em liberdade para o enterro de sua mulher.

No caminho para casa, ele se depara com um misterioso homem. Um senhor que parece conhecer Shadow mais do que ele mesmo. Com conversas estranhas e um tanto íntimas, o estranho senhor oferece a Shadow um emprego como seu guarda-costas pessoal.

Nada soa bem, mas uma série de “imprevistos” faz com que o protagonista aceite o trabalho. A partir daí, Shadow e seu empregador, que se apresenta como Wednesday, viajam pelos EUA numa missão que colocará a vida de ambos em perigo. Shadow vai descobrir que o impossível não só acontece em seus sonhos, mas que permeia cada singela coisa ou ser que o rodeia.

A narrativa obscura e despretensiosa:

Neil Gaiman tem um jeito simples de contar suas histórias, mas não pense que sua narrativa é desprovida de inúmeras referências (você precisa manjar muito de mitologia, geografia, história – entre outras categorias – para entender todas essas referências) e simbolismos (por exemplo, os sonhos do protagonista que contam muito do que vai acontecer). Não li uma só página que não houvesse uma mensagem nas entrelinhas. Cada nome, localidade, circunstância, diálogo ou “esquisitice” (o livro pende para o místico e sobrenatural a todo instante) tem um porquê.

A história é contada em terceira pessoa por um narrador onisciente que vai sobrecarregando a nossa cabeça com pequenos detalhes que nos fazem refletir por todo o livro. Logo nas primeiras páginas, já percebemos que não se trata do simples cotidiano da vida de um ex-presidiário, mas sim de uma enorme “tempestade” que está por vir.

Neil Gaiman é mestre em aplicar o sobrenatural e o inimaginável em suas histórias e, nesse livro, isso não é diferente. Deuses Americanos descreve de forma singular um mundo novo, uma nova realidade, onde deuses antigos e deuses novos tomam formas antropomórficas e passeiam entre nós, coexistindo com os seres humanos.

O autor constrói uma mística única onde esses deuses passam a existir pela vontade e pelo desejo humano.

De um lado, temos os antigos deuses das várias civilizações que conhecemos (mitologia nórdica, egípcia, africana, entre outros) que viajam com seus fiéis para o novo continente e aqui se estabelecem. Mas eles não são deuses ocultos, são de carne e osso e, independente dos seus poderes, podem também morrer.

Do outro lado, estão os deuses modernos que se personificam através de circunstâncias surreais (como o deus das autoestradas, o deus das mídias, o deus da TV e outros), personificados também pelo desejo e pela adoração humana.

O mote do livro é uma guerra que está para eclodir entre os dois lados, e o autor constrói de forma genial essa narrativa, apontando minuciosas dicas ao longo do livro. Os novos deuses estão cada vez mais poderosos (pois cada vez mais pessoas cultuam automóveis, TVs, computadores e afins), e os antigos deuses estão caindo no esquecimento (pois quase não possuem mais adoradores).

Personagem, sua capacidade de criar empatia:

Não quero dar nenhum spoiler aqui, mas já sabemos que a grande parte dos principais personagens são deuses (modernos ou não). Então, qualquer tentativa de falar de algum outro personagem que não seja protagonista faz com que eu acabe entregando algo sobre o enredo.

Shadow (sim, o protagonista), como o próprio nome sugere, é um mistério em si e, gradativamente, vamos descobrindo suas particularidades ao longo da história. O que mais me agradou no livro foi como o Gaiman faz um ex-presidiário (muito alto, forte, robusto, de mãos poderosas) soar como uma criança inexperiente, gentil e quase que desprovido de maldade. Suas falas são simples (diálogos sucintos); e suas piadas, inocentes.

O protagonista não espera muito de coisa nenhuma e, quando coisas surpreendentes acontecem (mortos conversando como vivos, duendes beberrões, sonhos se tornando realidade, animais que se tornam homens e etc.) ele age normalmente, como se isso fosse corriqueiro demais para ser notado.

Shadow é carismático, esperto e bobo ao mesmo tempo, simplório, mas heróico, agressivo quando necessário e pacato como um gatinho. Ele é um ser ambíguo, como os dois lados de uma moeda, mas que tende sempre a cair do melhor lado. Impossível não sentir empatia por ele.

E a trama?

O livro passeia pelo tempo e também por toda a parte, voltas e voltas são dadas para se chegar a um ponto especificado desde o princípio: a guerra entre os deuses. Alguns flashbacks foram bem desnecessários, em minha opinião. Alguns personagens estão ali para encher linguiça e não são nada necessários para a trama. Há também algumas histórias paralelas com seus próprios finais, alguns não tão interessantes.

Felizmente, a história se completa, é bem-feita e cuidadosa, produzida para nos segurar até o final. Surpresas nos aguardam até a última página.

Poderia existir uma continuação? Sim, mas não acho necessário (embora spin-offs, como o livro Os filhos de Anansi e alguns contos reunidos serem considerados continuações dessa obra). O que lemos aqui já está de bom tamanho. As principais pontas se fecham, e as que ficam sem um nó não são realmente relevantes. Não que eu não fosse ler algo mais sobre esse livro se Gaiman o escrevesse! (Sim, pretendo ler toda sua obra)

Um pouco sobre o autor:

O famoso autor britânico de fantasia, mais conhecido por seu trabalho com o personagem das HQs, Sandman, nasceu em 1960, em Portchester, no Reino Unido. Foi um leitor prodígio (começou a ler aos 4 anos, segundo ele próprio), ou seja, devorava livros desde a tenra idade.

Gaiman

Gaiman acreditava que o jornalismo seria sua conexão com a literatura, o caminho que o ajudaria a ser publicado um dia, então passou a fazer entrevistas e a escrever críticas literárias.

Seu primeiro romance foi escrito em parceria com o Terry Pratchett (Belas maldições – 1990 – como ficou conhecido aqui no Brasil). Deuses americanos é o seu quarto romance. Tendo sido publicado em 2001, foi vencedor dos prêmios Nebula e Hugo. Em 2011, uma edição comemorativa do seu décimo aniversário foi lançada com doze mil caracteres a mais (infelizmente, não foi essa a edição que eu li).

Crítica comparada:

Durante a minha leitura, não consegui me segurar e, lá pela página duzentos, pensei comigo: “o primeiro episódio da série não vai me fazer ver nada que eu já não tenha lido”. Está certo que eu não pretendia ver nada fiel, sei bem como são as adaptações dos livros, mas algo na série não me cheirou muito bem…

O que aconteceu comigo foi que o protagonista da série, o ator Ricky Whittle, não se parece em nada com o carismático e ingênuo Shadow do livro. São raras as cenas no livro em que podemos imaginar o personagem de cenho franzido e nervoso. Pelo contrário, o protagonista é um sujeito sempre calmo, desprovido de emoções aflitivas e carrancudas. Como eu disse acima, ele não se desespera e nem se surpreende com os absurdos do incomum.

Sei que muito desse sentimento foi o meu apego àquele personagem específico do livro, pois muitos dos meus amigos estão amando a série, mas, para mim, é apenas uma série que pouco retratará a atmosfera sobriamente despreocupada da obra em papel.

Série Deuses americanos

Recomendação:

Se você é fã do autor, leia o livro. Se você gosta de uma boa fantasia, essa vai lhe agradar muito. Se você gosta de um bom livro, também recomendo a leitura desse. Um livro quatro de cinco estrelas para mim.

Ah! Mais uma coisinha, se você, como eu, adorou o protagonista, recomendo ver mais um pouquinho do Shadow no conto “O monarca do vale”, encontrado na coletânea de contos lançado pele editora Conrad: Coisas Frágeis (Vol. 1).

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